quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

sábado, 21 de abril de 2018

9 – Fé e testemunho. (1 Jo 5,5-17; 5,18-21)

Ler na Bíblia A tradição litúrgica da Palavra propõe a leitura desta passagem da carta de João no tempo de Natal, ao refúgio da Epifania, a Solenidade que condensa em si três eventos da vida de Jesus: os reis magos que adoram o Menino de Belém e que o reconhecem como Rei dos Judeus; o milagre da água em vinho que dá aos convidados de continuar a viver a alegria das núpcias na presença dos esposos; o batismo de Jesus que, assumindo a condição humana até à sua kenosi, doa vida nova aos batizados.
O texto inicia com uma pergunta que partindo de uma exigência concreta (vencer o mundo e quanto a ele pertence) entende solicitar a fé em Jesus.
Jesus é o Filho de Deus, vindo com água e sangue: água que purifica a vida; o sangue que é vida e dá a vida: através do dom da sua vida o Cristo doa a vida eterna. Não com a água somente, mas com a água e com o sangue. Se o motivo da encarnação fosse primeiramente a da remissão e da purificação dos pecados bastava só a água, a batismal aquela já usada por João Batista. Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito: o Filho de Deus, o Verbo da vida veio ao mundo para que todos tenham vida e a tenham em abundância, isto é, possuam a vida eterna (cf. 1Jo 5,13).
É o Espírito que dá testemunho porque o Espírito é a Verdade (1Jo 5,6c). É o Espírito que toma daquilo que é de Jesus e o anuncia; é o Espírito que lhes dará testemunho e guia para a verdade toda inteira (cf. Jo 15,26; 16,13-14). Jesus, com a água e com o sangue, e o Espírito dão testemunho de Deus, isto é revelam a comunhão do Pai com o Filho e com o Espírito Santo. São Três aqueles que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue, e os três estão de acordo entre si (1Jo 5,7-8).
Quem crer no Filho de Deus, tem este testemunho em si (1Jo 5,10a): mediante a fé o crente participa da mesma comunhão do Pai com o Filho e com o Espírito Santo (cfr. 1Jo 1,3).
A fé, segundo as enumerações do versículo 4, concede a vitória sobre o mundo. Segundo Jo 15,19 o mundo ama o que é seu. Passar para a fé significa portanto ser não mais para si mesmo mas para Deus (cf. 1Jo 15,19). O êxito é a vitória sobre o mundo, a mesma vitória concedida a quem crer no Filho de Deus, no testemunho que ele dá mediante a água, o sangue e o Espírito.

E tudo isto se torna leve na medida em que nos deixamos gerar por Deus: Quem é  gerado por Deus vence o mundo; e esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé (1Jo 5,4): quem é que vence o mundo se não aquele que acredita que Jesus é o Filho de Deus? (1Jo 5,5).
Quem se deixa gerar por Deus, quem acolhe e crer no testemunho de Deus a favor de seu Filho tem este testemunho em si (v.10a), a guarda e se torna sua; ele mesmo se torna este testemunho que é a vida: Deus nos dá a vida eterna e esta vida está no seu Filho. Quem tem o Filho – quem tem este testemunho em si –, tem a vida; quem não tem o Filho de Deus, não tem a vida (v. 11-12).

São três as coisas que tornam ‘falso’ Deus: se dizemos de não ter pecado (1Jo 1,10) se dizemos de não ter agido injustamente. Nenhuma mentira vem da verdade. Quem é o mentiroso se não aquele que nega que Jesus é o Cristo? (1Jo 2,21). Quem não crer em Deus, faz dele um mentiroso, porque não crer no testemunho que Deus deu em favor do próprio Filho (1Jo 5,10).
A mentira (cf. Gen 3) produz um olhar fantasmagórico sobre a realidade e confunde a simplicidade daqueles que se confiam no verdadeiro Deus, no seu Filho Jesus Cristo: a mentira gera a idolatria daqueles falsos deuses dos quais o evangelista na conclusão da carta convida a ter cuidado: Filhinhos, cuidado com os falsos deuses!
O Filho de Deus veio para dar a vida, a vida eterna, a aqueles que creem nele e a ele se confiam. In 1Jo 5,12 se adverte um apelo e juntos numa missa in vigilância: “tenhas cuidado da vida, da tua vida! Creias no Filho de Deus, no seu testemunho! Tenhas em te o Filho de Deus, guarda-o em tudo tu mesmo, com todo o teu ser! Sejas tu a sua testemunha!”
A confiança daqueles que creem no nome do Filho de Deus se exprime na oração voltada a Deus. Aderindo à sua vontade e não a do mundo, estão certos de serem escutados por Deus e conscientes de já possuírem o que foi pedido.
Um exemplo de oração confiante e eficaz é aquela voltada para o bem do próprio irmão pecador que confia no perdão de Deus.
Retomando 1Jo 5,1 poderemos explicar desenvolvendo com “Quem ama aquele que gera (Deus), ame também quem é gerado por ele”, sujeito aqui, mais que o Cristo, são os filhos de Deus (v.2). Quem crer que Jesus é o Cristo, quem acolhe um testemunho explicito de amor que ele deu, é gerado por Deus e participa da filiação divina, da vida eterna. Portanto: quem ama a Deus ame também o seu irmão (1Jo 4,21), isto é creia que também o seu irmão seja filho de Deus, alguém pelo qual Cristo deu a vida para que não se perca.
O evangelista levanta a questão do pecado (a incredulidade!?) que conduz à morte e do pecado que não conduz à morte, quase convidando a não preocupar-se com o primeiro. Por que? O hagiógrafo, não se firma ao caso do pecador ligado a si mesmo e pertencente ao mundo que se fecha ao perdão de Deus porque em Deus não se confia, o santo hagiógrafo parece querer se deter sobre o fato que nem todos os pecados levam à morte. É verdade que toda injustiça é pecado mas, conclui, existe o pecado que não leva à morte (v.17). Portanto eis o convite à oração pelo irmão pecador afim de que Deus lhe dê a vida, lhe conceda o perdão e os purifiquem pela fé.
Parece que o santo hagiógrafo tem a insensibilidade da comunidade para o irmão pecador. Como recorda que a perfeição do amor é alcançada no amor pelo irmão  (ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós e o amor dele se realiza em nós – 1Jo 4,12), deste modo parece aqui querer aludir ao fato que a comunidade dos fiéis é uma comunidade não de puros e de perfeitos, mas de irmãos que esperam o perdão de Deus. E por este motivo o convite é para oração para que os irmãos tenham a vida, e a tenham em abundância, aquela eterna.
E agora porque na sua oração ao Pai Jesus pede que não se perca nenhum daqueles que lhe são dados (cf. Jo 17), poderemos afirmar que paradoxalmente o evangelista parece convidar a comunidade dos irmãos a rezar por todo pecado fraterno porque antes de tudo esta é a confiança que temos nele: qualquer coisa que lhe pedimos segundo a sua vontade, ele nos escuta (1Jo 5,14).
O convite é o de tomar cuidado do irmão que caiu no pecado e isto por motivo da fé no Filho de Deus que nos deu a vida eterna e por isso a possuímos. Se é verdade que toda injustiça é pecado, isto todavia toda injustiça não perde a vida eterna. Forma portanto do amor de Deus é rezar pelo irmão, amá-lo como o próprio Deus.
Até agora vimos que quem é gerado por Deus, isto é quem crer que Jesus é o Cristo (cf. 1Jo 5,1), se torna filho com o Filho e participa do mesmo amor que se dilata em sentido vertical para Deus e em sentido horizontal para o irmão. Também vimos que para ser gerado por Deus é aquele que crer que Jesus revela a sua messianidade através do Espírito, da água e do sangue. Col v. 18, entrando no epílogo da carta, vem ampliada e ulteriormente definida a geração por Deus. Acolhendo a vinda na carne do Verbo da vida – retomamos a pedra angular da carta que pomos a modo de inclusão com este epílogo – vemos purificados de todo pecado (cf. 1Jo 3,3-4). Quem permanece nele não peca (1Jo 3,6). Quem é gerado por Deus não peca: quem é gerado por Deus preserva a si mesmo e o Maligno não o toca. (1Jo 5,18) Quem não é mais do mundo (cf. Jo 17,15) mas pertence só a Deus, por Deus é guardado e se torna santo, separado das coisas em poder do Maligno. Ele não será tocado pelo Maligno porque estes é incapaz de tocar as coisas santas, de sustentar a pureza das coisas santas, sem serem queimado, purificado.
Esta é a inteligência que o Filho de Deus nos deu para conhecermos o verdadeiro Deus: Sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu a inteligência para conhecermos o verdadeiro Deus. E nós estamos com o verdadeiro Deus e com o seu Filho Jesus Cristo: ele é o verdadeiro Dio e a vida eterna. Filhinhos, cuidado com os falsos deuses! (1Jo 5,20-21).

Para continuar a reflexão
Estão condizentes em nós os três testemunhos do Espírito, da água e do sangue? Possuímos em nós este testemunho? E o que, mais concretamente, este testemunho significa e comporta?
Estamos dispostas e prontas a rezar pelo irmão pecador? Até que ponto?
O que quer dizer ser gerados por Deus? Quais ao acontecimentos, empenhos, modos de ser e de agir que revelam melhor o meu vir de Deus? e ao contrário quais são os que contra

8 - A perfeição do amor (1 Jo 4,11-5,4) – Ler na Bíblia.


 O amor recíproco
Os versículos de 4,11 a 5,4 da primeira carta de João constituem a sesta dos sete pericopi na qual a carta pode ser sub dividida. Se trata na realidade da segunda parte de uma pericope mais extensa, que parte do versículo 3,23 e é estreitamente conexa ao texto que agora tomamos em consideração. Também para este trecho pode ser útil um esquema que pode escandir um tríplice desenvolvimento do texto: a um anúncio (4,11) fazem seguido de um momento de exortação para viver o que o anúncio propõe (4,21) e os critérios de discernimento afim de que o anúncio possa ser concretamente vivido, os quais ocupam os restantes versículos.
«Caríssimos, se Deus nos ama, também nós devemos amarmos uns aos outros» (4,11). Se trata de um tema muito caro para o autor da primeira carta de João: a recíproca interdependência entre o amor de Deus e o amor pelos irmãos. Notemos que, assim como em diversos outros passos da carta no qual é chamado à exigência do amor recíproco (1Gv 1,6-7; 2,5; 3,11; 3,23; 4,7, como também em Jo 3,14), também aqui a comunhão com Deus e com os irmãos não tem um sujeito nem como seu ponto de partida nem com seu ponto de chegada. A atitude que é recomendado em resposta ao amor de Deus por nós – amor que sempre nos precede – não é convite para amar por nossa vez a Deus, e nem simplesmente para amar o próximo. Isto significa que o coração pulsante de ágape (termine como o qual o Novo Testamento indica o amor desinteressado e oblativo) não é o amor de qualquer um para outros qualquer. Este sentido é certamente contido na ideia de ágape, mas não é este que deve ser levado à perfeição. Realmente, como faz notar Bruno Maggioni, na carta se fala muito de amor de Deus e de amor fraterno, sòmente em 4,21 e em 5,2 se fala do nosso amor para com Deus. Se diria que João receie aquele tipo de vida religiosa que se dirige diretamente a Deus sem passar através do concreto da praxe quotidiana .
«Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós e o amor dele é perfeito em nós» (4,12) e ainda mais adiante: «Nisto o amor alcança entre nós a sua perfeição: e temos plena confiança no dia do julgamento, porque tal como Jesus é, assim somos também nós, neste mundo» (4,17). A perfeição do amor é certamente possível, ou melhor, é a meta a qual tende toda a vida do discípulo, como nos recorda também São Mateus («vós, portanto, sejam perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste»: Mt 5,48), mas ela não consiste em levar a perfeição a capacidade de amar como qualquer um: isto de fato seria ainda fruto de um esforço pessoal. Perfeita deve ser ao contrário, a reciprocidade no amor, uma reciprocidade não fechada em se mesma, mas capaz de expandir-se sempre mais além, envolvendo no seu circulo de amor sempre novos irmãos e irmãs. A este propósito, estão iluminando as palavras de um autor do século XII, Riccardo di San Vittore, que no seu tratado sobre a Trindade escreve:
Pois bem, na caridade autêntica o Máximo da excelência lembra que seja isto: querer que um outro seja amado como o somos nós mesmos. Com efeito, no amor recíproco e ardente nada é mais precioso nem mais admirável do que o desejo que um outro seja amado do mesmo modo daquele que sumamente se ama e daquele que se é sumamente amado. Portanto a prova da caridade perfeita consiste no desejar que o amor do qual se é objeto seja participado.
Isto significa que é fundamental antes de tudo preocupar-se de ter feito todo o possível para que o próprio irmão possa crescer no amor. Muito ao contrário, se é excessivamente preocupados pelas próprias disposições pessoais do que pela benevolência para com o outro. Se sente, por exemplo, sugerir muito como princípio espiritual a máxima segundo o qual cada um deveria preocupar-se unicamente pela própria conversão pessoal, sem julgar os outros. Parece na realidade que o texto de 1Jo se leva para mais além: se é chamados de fato a preocupar-se pelo estado do próprio irmão não para libertar-se de um sentimento de culpa, ou para sentir-se justificados, para ter todas as contas saldadas, ou pior ainda, pela presunção de saber onde é bem que o outro se escorrega. A única razão que me pode levar a preocupar-me pelo outro é a consciência que o meu crescimento no amor e o do irmão dependem um do outro, ou melhor, um não si dá sem o outro. A ideia de perfeição apresentada no nosso texto não coincide por isso com uma pretensão de ser sem mancha, sem imperfeição, limites ou incriminações, e nem mesmo sem caídas. O amor verdadeiro, perfeito, corre sempre risco, comprometimento; se acolhermos o desafio de amar, antes ou depois o mínimo que nos possa entender é de sujarmos as mãos, se não até de feri-las. Então a perfeição não será nada mais nada menos do que a confiança de estender aquelas mãos sujas, feridas, e esperar com paciência e fidelidade que seja o próprio Jesus a lava-las e a curá-las através das suas próprias feridas: «pelas suas chagas nós somos curados» (1Pt 2,24).
«Ninguém jamais viu a Deus»: significa que não si pode pretender ver Deus por conta própria! A busca de Deus quanto mais é íntima, personalíssima, as vezes quase indizível, e muito mais deve ter um respiro eclesial. Só graças à profundidade do olhar de um irmão, de uma irmã, da própria comunidade «se conhece que nós permanecemos nele e ele em nós» (4,13). Este “permanecer em Deus” é descrito por João como real participação na própria vida de Deus Trindade, porque ela tem como seu término de no fato que «ele nos deu o seu Espírito» (4,13). O Espírito Santo, dom do Pai e do Filho, é portanto dado afim de que a própria íntima relação que lega as Pessoas da Trindade possa ser o princípio da nossa relação pessoal com Deus e da comunhão com os irmãos. Sem dúvida é a preciosa expressão «Deus é amor» (4,16), única pela sua gravidez em toda a Sagrada Escritura, para constituir o vértice da meditação sobre Deus ágape. Assim Bruno Maggioni comenta: com esta frase João não faz mais do que reassumir o quanto a história da salvação continuamente testemunha: Deus escolhe, perdoa, permanece fiel ao seu povo apesar das traições, e em Jesus Cristo se manifesta como amor que se doa e se deixa crucificar. A preciosa afirmação de João deve ser lida com toda esta densidade.
A participação na vida trinitária impede também de cair no risco de uma lógica “funcionalista”, a qual poderia conduzir a uma leitura não advertida do texto: tal lógica exigiria o amor pelo irmão como passagem obrigatória para alcançar o amor por Deus, come se fosse uma espécie de preço à pagar, necessário, mas de qualquer modo transitório, e uma vez alcançada a meta da comunhão com Deus, o relacionamento com o irmão não nos interessam mais. João afirma ao contrário com clareza que os dois polos, amor de Deus e amor pelo irmão, estão ou caem juntos: amadurecer no amor não significa utilizar um dos dois para conquistar o outro, mas acolhê-los ambos – e juntos – como dons gratuitos. Exemplificando, parece poder dizer então que é necessário passar de uma lógica funcionalista a uma lógica circular e de participação.
A bem ver, a própria estrutura do texto reproduz no estilo esta “circularidade em expansão”: o autor não teme repetir muitas vezes, mesmo em brevíssimas distância, os mesmos conceitos ou reformulá-los com palavras semelhantes. Já dentro dos poucos versículos da nossa pericope é possível localizar esta rede de contínuas notas e chamadas. No v. 4,12 se diz que «se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós e o amor dele é perfeito em nós», logo reforçado no v. 4,15: «quem confessa que Jesus é o filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus» e no v. 4,16: «Quem permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece n’Ele». A exortação ao amor recíproco, expressa em forma mais concisa nos v. 4,11 e 4,12, é especificada e ampliada nos v. 4,20 e 4,21, lá onde se mostra a contradição de quem diz amar a Deus que não vê, mas nutrindo sentimentos de ódio para o próprio irmão que vê. A mesma ideia em forma reversa é apresentada pouco mais adiante no v. 5,2: «nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus: quando amamos a Deus e observamos os seus mandamentos». Por último, a confissão de Jesus como Filho de Deus, condição para que Deus permaneça em nós (v.15), retorna no início do capítulo 5, onde vem integrado com o tema da geração de Deus: «quem crer que Jesus é o Cristo, nasceu de Deus». Enfim a «confiança no dia do juízo» (v. 4,17) constitui o caminho de acesso para aquela «fé que venceu o mundo» (v. 5,4) que sela a nossa testa. Se trata realmente daquele acontecimento que deveria fazer do fundo de toda a vida do cristão: o de uma confiança (parresìa) capaz de expulsar todas as vezes os temores que nos paralisam, de distanciar e relativizar os nossos medos, os nossos bloqueios, para que nos torne intimamente persuasivas, para usar as palavras de João da Cruz, que “no final da vida seremos julgados unicamente pelo amor”.

Para continuar a riflexão
Quais são as dificuldades concretas que encontro no caminho de acolhimento daqueles irmãos/irmãs com os quais sinto mais dificuldade em relacionar-me?
Quais os acontecimentos na minha vida de discípulo do Senhor que dizem o meu desejo de crescer no amor para Dio e para os irmãos? Quais os acontecimentos que contradizem este desejo?
Quais os temores, medos, rigidez que têm o poder de cansar o meu caminho de seguimento? Consigo entregar-lhe com simplicidade e confiança a Aquele que pode cuidar de mim?


7 – Fé, Amor, Discernimento (1 Jo 3,23-4,10) – Ler na Bíblia.


 Uma alegre notícia
O que existe no coração do Evangelho? O que é verdadeiramente notícia alegre para nós? No seu relato, o evangelista João traz esta palavra de Jesus aos discípulos, pronunciada na intimidade da última ceia: «Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos tenho amado» (Jo 15,12). O reconhecer ser amados incondicionalmente e gratuitamente pelo Senhor Jesus aparece ao amor recíproco e este se torna o espaço concreto no qual se verifica e si testemunha o próprio amor de Cristo. Esta troca de amor não é só uma experiência que somos chamados a fazer para viver como discípulos de Cristo. É um “mandamento” que o próprio Senhor dá como exigência fundamental da aliança, como empenho quotidiano de resposta à vontade de Deus. E é isto que permite aquela fidelidade quotidiana necessária para guardar em si o amor de Deus. Viver e guardar o mandamento do amor significa permanecer no amor de Cristo e através dele, abrir-se para o amor do Pai. Então João o recorda com estas palavras de Jesus: «Como o Pai me amou, também eu vos tenho amado. permanecei no meu amor. Se observares os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, como eu tenho observado os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. Vos digo estas coisas para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena» (Jo 15,9-11). Aquele mandamento que Jesus dá ao discípulo, o amor recíproco como reflexo do amor trinitário, é o que conserva a vida do fiel, a enraíza na própria vida de Deus e comunica a alegria. É verdadeiramente o coração do evangelho.
João retoma tudo isto no capítulo 3 da sua primeira carta: «Este é o seu mandamento: que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o preceito que nos deu. Quem observa os seu mandamentos permanece em Deus e Deus n’ele. Nisto conhecemos que ele permanece em nós: pelo Espírito que nos tem dado» (1Jo 3,23-24). As duas dimensões da “regra” do cristão, o conteúdo do mandamento (o preceito que o Senhor nos deu), se revelam como aspectos inseparáveis, um do outro, um se firma no outro, um complementa no outro: a dimensão vertical que se exprime e si atua na fé em Cristo e a dimensão horizontal, que se vive nos relacionamentos de amor recíproco na comunidade dos irmãos. O crer e o amar se compenetram e se tornam o ato fundamental com o qual o fiel testemunha Cristo.

Crer no nome de Jesus
Mas o que significa crer? O que significa amar? Crer não é somente adesão da inteligência a uma verdade revelada. João fala de «crer no nome do Filho», no nome de Jesus Cristo. Crer é entrar em comunhão profunda, numa confiança e num abandono total com Aquele que nos revela o próprio mistério de Deus, o seu amor por nós, o seu nome de Pai. Crer é entrar em relação com um “nome” que contém em si todas as promessas de Deus, com um olhar que nos manifesta o mundo de Deus. esta fé nos abre o conhecimento de Deus, um conhecimento que nos revela o nome oculto de Deus. Assim o exprime João: «Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: Deus mandou ao mundo o seu Filho unigênito, parque nós tivéssemos a vida por meio dele. Nisto está o amor: não fomos nós que amamos Deus, mas ele que nos amou e mandou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados» (1Jo 4,8-10). O nome de Deus é misericórdia, é ágape. Estamos como colocados diante da infinita luz que emana do rosto de Deus e que investe toda realidade criada, o mundo e cada um de nós. O esplendor do ágape nos revela quem é Deus. Mas não é uma luz inacessível, que diante da qual se permanece como mudos espectadores, incapazes até de pousar o olhar sobre este esplendor. Deus é amor porque «mandou ao mundo o seu Filho unigênito», «parque nós tivéssemos a vida por meio dele… como vítima de expiação pelos nossos pecados». O esplendor do amor de Deus nos envolve, nos atrai porque nos é revelado através do Filho, aquele que assumiu a nossa própria carne e ofertou esta carne pela salvação do mundo. Um dia Jesus disse a Nicodemos estas palavras: «Deus amou de tal forma o mundo que deu o ser Filho unigênito, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna» (Jo 3,16). Deus é amor porque contém e cuida na sua infinita misericórdia de todo o mundo, e cada um de nós e isto para doarmos a vida e arrancarmos de toda forma de morte.
Acolher este amor em nós e transforma-lo em vida é crer no nome de Jesus. Mas isto nos revela também o que significa amar. Para o discípulo de Cristo amar não é antes de tudo um movimento horizontal que me abre para o alto, um ato de vontade benévola com o qual acolho o outro. Certamente o outro, o irmão é o ponto de chegada, o espaço no qual se realiza e toma forma o amor. João o recorda quando diz: «Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus: e quem ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama, não conhece a Deus» (1Jo 7,8). Mas João nos torna consciente que o amor, enquanto o próprio nome de Deus, pode ter só nele a fonte e a origem. Então para o discípulo amar é antes de tudo reconhecer esta origem e tomar consciência que é possível amar Deus e os irmãos só no momento no qual se descobre o amor que o próprio Pai em Jesus se dirige para cada um de nós. Não somos os protagonistas do ágape, mas só os beneficiários e os testemunhas: «Nisto está o amor: não somos nós que amamos a Deus, mas é ele que nos ama» (1Jo 4,10). O amor de Deus nos precede sempre, protege o nosso amor: ele é uma pobre resposta a esta infinita caridade que desce sobre nós.

O Espírito de Deus
Para permanecer radicados na vida do discípulo, a fé e o amor necessitam de um terreno estável e fecundo. E este é dado pelo Espírito de Deus: «Quem observa os seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele. Nisto conhecemos que ele permanece em nós: pelo Espírito que nos é dado» (1Jo 3,24). A fé e o amor adquirem uma dimensão interior graças ao dom do Espírito que é a garantia, o sigilo da comunhão com Deus. Só quem se deixa penetrar pelo Espírito de Deus pode adquirir um olhar que vai além das aparências e além das ambiguidades da história. João nos coloca em vigilância sobre aquele que tenta apoderar-se da história, dos acontecimentos, do mundo e sobretudo do coração do homem para semear maldade e engano. Para João esta realidade que age de modo enganador na história tem um nome: «Este é o espírito do anticristo que, como ouvistes dizer, ele vem, mas ele já está no mundo» (1Jo 4,3). Dar a este espírito de engano o nome de “anticristo” significa tomar cuidado da radical ambiguidade com o qual ele age: não só se contrapõe a Cristo, mas assume como máscara o rosto de Cristo. Este é o engano mais perigoso porque utiliza o nome de Jesus para transmitir falsidade: tem falsos profetas que falam em seu nome e transmite um “espírito” de mentira que segue a lógica idolátrica do mundo. O seu fascínio é tão sutil a ponto de não permitir sempre um pronto discernimento. Isto é possível só mediante o Espírito de Deus porque só o Espírito desmascara o engano contido no anúncio do anticristo: e isto é esvaziar o próprio mistério da encarnação do Filho, a revelação de um Deus que toma a nossa carne para compartilhar em tudo a nossa humanidade e doarmos a vida de Deus: «Nisto podes reconhecer o Espírito de Deus: todo espírito que reconhece Jesus Cristo vindo na carne, é de Deus; todo espírito que não reconhece Jesus, não é de Deus» (1Jo 4,2-3). A humanidade de Deus é o grande escândalo que deve ser removido. Mas se Deus é sem o rosto humano, se Deus não se imerge nas viradas da história, então a fé se torna ideologia e gnose, um modo de pensar ou viver e não o encontro e a comunhão com a qual Deus tanto amou o mundo a ponto de dar o seu Filho. É uma tentação que atravessa toda a história do cristianismo e pode atacar e comprometer radicalmente a identidade do cristão. O verdadeiro lugar em jogo é a profissão de fé em Jesus Cristo vindo na carne. Esta fé, que é a base da regra do cristão, não só nos abre para a própria vida de Deus, mas se verifica e se atua no amor recíproco, gratuito e solidário. A carne de Cristo, a sua divina-humanidade, são a garantia do crer e do amar.

Para continuar a reflexão
Como discernir hoje, a partir dos nossos estilos de vida ou de certas lógicas através dos quais julgamos, o engano do “espírito do anticristo”? Quando se opera uma mundanização na vida do discípulo de Cristo e quando o evangelho se transforma em simples ideologia?
O que significa “crer no nome de Jesus” e como as escolhas quotidianas podem testemunhar esta fé?
Existe um real conhecimento do amor de Deus que nos precede e que funda os nossos relacionamentos fraternos? Na tentativa de amar um irmão ou uma irmã temos consciência que não somos nós os protagonistas do amor?

6 - Amar na verdade (1 Jo 3,11-24) – Ler na Bíblia.



Da fé em Deus l’amore fraterno
O fundamento da nossa vida cristã consiste no dom que Jesus deu a sua vida por nós (cf. 1Jo 3,16). É o dom do Filho que confirma a eterna aliança entre Deus e os homens; uma aliança que para ser respeitada exige que os próprios homens por sua vez se doem a vida reciprocamente: nisto demostram serem irmãos e filhos de Deus.
João insiste sobre a íntima ligação que existe entre a nossa condição de filhos de Deus e a retidão da nossa vida moral, ou seja, a fidelidade ao dúplice mandamento da fé em Jesus e do amor fraterno. É da fé no poder do dom de Deus em Jesus Cristo que deriva a ação ética e não vice-versa. Se é verdade que a observância dos mandamentos permite permanecer em Deus, é ainda mais verdade e profundo que o que poderia resultar da obra humana é na realidade só o fruto do dom de Deus.
O critério para compreender se vivemos realmente como filhos de Deus, é a caridade fraterna fativa. Questa é a mensagem (1Jo 3,11) que os destinatários da carta ouviram “desde o princípio” e é a palavra que constitui a comunhão eclesial (1Jo 1,3). A alternativa à caridade é um outro princípio, o de Caim, que faz prosseguir a história humana em suceder-se de atos de violência e que, para quem se professa cristão, expulsa realmente da comunhão eclesial. As obras manifestam a verdadeira fé e a fidelidade de cada um, o ser de Deus ou do Diabo.
Siguamos agora, passo a passo, versículo por versículo, o pensamento de João.

Comentário
v.12 «Não com Caim, que era do Maligno e matou seu irmão»: o mandamento do amor recíproco é ilustrado por contraste através de um exemplo de ódio fratricida parte da Bíblia, Caim contra Abel. Na tradição bíblica Caim é o tipo de quem não crê, de quem se rebela contra Deus e de quem é avarento; aqui se faz o tipo de quem odeia. João exprime um juízo moral sobre os atos de Caim e sobre os de Abel o justo, que na epístola vem significativamente indicato só com la expressão “seu irmão”. Quem se deixa inspirar pelo Maligno é por sua vez homicida como Caim e espalha ódio dentro da comunidade cristã. O injusto se revela na inveja e no ciúme, acontecimentos mundanos que penetram muito nas comunidades cristãs e as deformam.
v.13 «Não vos admireis, irmãos, se o mundo vos odeia»: o mundo não somente “não conhece” os filhos de Deus, mas os odeia. Assim como Caim odiou Abel o justo, o mundo odeia os justos e os persegue (cfr. Mt 5,10-12). «Saibam que antes de vós [o mundo] odiou a mim» (Jo 15,18), Jesus advertiu os seus discípulos no seu longo discurso de despedida.
v.14a «Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos»: o autor liga a passagem da morte para a vida com o amor fraterno, que realmente é, prova e confirma: o amor pelos irmãos não é a causa, mas é o sinal que se possui a vida divina. Ao contrário, é come Caim, «quem não ama permanece na morte» (1Jo 3,14b). Esta passagem da morte do pecado para a vida divina é acontecido no passado através da iniciação cristã e no presente continua com os seus efeitos. Nesta breve afirmação da epístola ressoam as palavras de Jesus citadas no quarto evangelho: «Quem escuta a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não será condenado, mas já passou da morte para a vida» (Jo 5,24).
«Porque amamos os irmãos»: o exercício da caridade fraterna é o sinal de riconhecimento que alguém é nascido de Deus (cfr. 1Jo 3,10; 4,7). Santo Agostinho sintetiza de modo luminoso: «Ninguém sonde os outros: cada um examine-se a si mesmo: se encontrar a caridade fraterna, esteja certo que já passou da morte para a vida». (Comentário da epístola  aos Parti, 5,10)

v.15 «Quem odeia o próprio irmão é homicida»: quem odeia não somente provoca a morte do irmão, mas é também causa da sua própria morte. Ele é suicida, porque destrói a vida divina que leva em si.

v.16 «Nisto conhecemos o amor, no fato que ele deu a sua vida por nós»: João  procede ainda por contraste: o ódio homicida de Caim contrapõe ao amor de Cristo que  oferece a sua vida por nós (cf. Jo 10,11.15.17.18). O gesto de Jesus que leva ao cumprimento a sua missão de Filho no Dom de si por amor é a fonte e o modelo do estilo de vida dos fiéis. O empenho ético se funda sobre estatuto originário dos fiéis, crentes no amor de Cristo porque o fizeram experiência: «conhecemos o amor». O amor “de Deus” que se derrama sobre quem observa a sua palavra (cf. 1Jo 2,5) e que se exprime tornando-nos seus filhos (cf. 1Jo 3,1), tem a sua fonte última em Jesus Cristo: é mediante Jesus Cristo que vem a nós a graça de dar a nossa vida pelos outros. O dom da nossa vida que fazemos aos irmãos participa da mesma oferta eucarística de Jesus. Com a seguinte diferença: se a oferta de Jesus é uma ação livre, para nós é ao contrário uma obrigação que prorrompe da nossa ligação com Jesus. Por isto «também nós devemos dar a vida pelos irmãos» (1Jo 3,16).
“Também nós”: é chamado o mandamento do amor fraterno formulado por Cristo: «amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado» (cf. Jo 15,12). João o trae logo depois uma aplicação prática no v.17. «Não precisa, de fato, ‘amar Deus’ e nem ‘amar Jesus’; precisa amar o outro com o mesmo amor de Jesus. O lugar do homem é o lugar de Deus. […] Amar o outro é amar Deus; atentar a vida do outro é atentar a Deus» (Y.Simoens).
A verdade da fé deve ser passada pelo cadinho da ação. O autor da carta, tomando logo um exemplo concreto de caridade fraterna (cf. 1Jo 3,17), exprime a realidade da fé, o que a torna verdadeira. Por experiência, sabemos que é muito fácil amar os irmãos de modo geral, enquanto é mais difícil amar o próprio irmão que está próximo de nós … Mas é justamente isto que cada um deve está atento.

v.17 «como pode o amor de Deus permanecer nele?»: se entendido como genitivo de qualidade, a expressão “amor de Deus” equivale a amor divino; se entendido como genitivo subjetivo, se trata de um amor que tem a sua fonte e o seu modelo em Deus, manifestado-se a nós em Jesus Cristo seu Filho. Se falta a obra concreta de fraternidade cristã, então o amor de Deus não pode permanecer em nós e também nós mesmos não podemos permanecer em Deus.

v.18 «Filhinhos, não amemos com palavras nem com a lingua, mas com os fatos e de verdade»: esta exortação está em ampla polêmica com os mestres do erro, os gnósticos do herege Cerinto, contra quem se lança a epístola. No sentido igualmente polêmico, se pode ler Gc 2,15-16: «Se um irmão ou uma irmã estão sem roupas e desprovidos do alimento quotidiano e alguns de vós diz a eles: ‘Vai em paz, aquecei-vos e saciai-vos’, mas não dás a eles o necessário para o corpo, que adianta?». O amor que se nutre só de palavras e de caráter abstrato e não se traduz em fatos, é pura hipocrisia, e revela a esterilidade da nossa fé. Comenta s. Agostinho: «Se ainda não estai pronto a morrer pelo irmão, etejas disposto a dar ao irmão um pouco dos teus bens. A caridade comove o teu coração, de tal modo que te faz agir não com vaidade mas com muita misericórdia; então a tua atenção se voltará sobre quem se encontra em necessidade. Se de fato não dás o supérfluo ao irmão, como poderás dar para ele a tua vida?» (Comentário da Primera carta de João, V,12).
«Na verdade»: na linguagem de João a expressão se relaciona à Ideia da revelação transmitida por Cristo e designa a ação que se inspira na verdade manifestada por ele. Verdade não é tanto o nosso reto conhecimento de Deus, quanto a fidelidade e a estabilidade do próprio Deus. Sobre esta verdade se funda a nossa fé e nesta verdade a nossa fé nos torna participantes.

v. 19a «Desse modo saberemos que estamos do lado da verdade e diante de Deus tranquilizaremos o nosso coração»: com a expressão “nascidos da verdade” João  tranquiliza os cristãos que cumprem o mandamento do amor (“Desse modo” equivale a “no amor fraterno”) de viver em comunhão com Deus. Pelo fato que nos comportamos retamente nos tomamos consciência que «estamos do lado da verdade», verdade que é a mensagem de Cristo escutada: «Quem é da verdade, escuta a minha voz» (cf. Jo 18,37).

v.20 «mesmo que a nossa consciência nos reprove»: O único modo no qual os homens podem ter uma consciência que não os condenem é observar os mandamentos de Deus, mas a nostra consciência conhece também o pecado, a fraqueza ou as inadvertências… No caso se a nossa consciência nos reprovar por qualquer pecado, não deixemo-nos  perturbar, porque Deus, o qual conhece tudo, dá um julgamento mais iluminado e justo do que aquele dado pela nossa consciência (coração). ReaImente, somente diante de Deus podemos encontrar paz: estar diante d’ELE purifica as intenções de tudo isto que nós chamamos “amore”.

v.20: «Deus é maior do que a nossa consciência, e Ele conhece todas as coisas»: o fato de que Deus conheça todas as coisas, também os desejos e os pensamentos do nosso coração (cardiognose divina), não toma um controle totalitário de sua parte, mas um senso de segurança para o homem para o reparo das reprovações do próprio coração e de todos os modos da sua mau consciência. Não devemos ter medo por causa disso: Deus é muito maior do que os nossos julgamentos mesquinhos. Na sua liberalidade, Ele está sempre pronto a perdoar. «O cristão repreendido pela sua consciência, não só confirma a se mesmo que Deus conhece também as suas ações de amor, mas edifica a sua confiança também no mar da compreensão e da misericórdia divina, benigna com todos» (R. Schnackenburg). Deus é maior porque é criador e juiz de todas as coisas; é maior porque conhece todas as coisas, mais precisamente o que faz o nosso coração; é maior  porque a nossa consciência, o nosso templo interior, é a sua imagem.
Mais uma vez, comenta magnificamente s. Agostinho: «Tu és capaz de escondere o teu coração aos homens, esconde-o a Deus, se podes. Como poderáis  esconde-lo a Ele, a quem um certo pecador, temeroso, confessou: ‘Onde encontrarei um rifúgio, longe do teu espírito, longe do teu rosto?’ Esta pessoa procurava um lugar para onde fugir e livrar-se do gulgamento de Deus, mas não encontrava. Onde não está Deus? ‘Se subo até ao céu, lá tu estás; se desço aos abismos, tu estás presente’ (Sl 138, 7-8). Para onde irei, para onde fugirei? Se queres um conselho, quando quizeres fugir dele, fugi para ele. Fugi para perto dele com confiança, e não se escondas do seu olhar: nada poderás fazer, enquanto não abrires para ele com confiança o teu coração» (Comentário, cit., 6,3).

v.21 «Caríssimos, se a nossa consciência não nos condena, sentimos confiança para nos dirigirmos a Deus»: se o nosso coração não nos dá o tormento da mau consciência, fica espaço só para a confiança, a parresía, isto é, o falar franco e sincero que exprime em ser bem sucedido na comunicação entre Deus e o nosso coração. Se nutre esta atitude nos relacionamentos com Deus quando se cultiva a oração, acompanhada no guardar os mandamentos de Deus e de um modo de viver conforme à Sua vontade. Podemos assim nos voltar para Ele com a forte convicção que Ele nos acolhe com amor e nos considera sempre seus filhos. A “plena confiança” é por isso determinata pela certeza do crente de ser atendido por Deus em Jesus Cristo: «Qualquer coisa que pedires em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedires qualquer coisa no meu nome, eu o farei» (Jo 14,13-14; e cf. Jo 15,7; Jo 16,23-24.26).

v.22 «e qualquer coisa que pedimos a recebemos dele, porque osbervamos os seus mandamentos e fazemos aquilo que é do seu agrado»: A observância dos mandamentos demonstra o mútuo amor e a recíproca aliança entre Cristo e os seus fiéis. A fé e a caridade são inseparáveis, não porque a fé seja um ato dependente da atividade do homem, mas porque ela entra também no mandamento: «que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros» (cf. 1 Jo 3,23).

Para continuar a riflexão
Pela Primeira carta de João é importante ser “da verdade”. Se vem da verdade se vive uma vida estando “da parte justa”. De onde provém os meus pensamentos, as minhas palavras e os meus gestos?
«A justiça é o primeiro caminho da caridade ou, como disse Paulo VI, é a ‘medida mínima’ dela, parte integrante daquele amor com os fatos e na verdade (1Jo 3,18), a qual exorta o apóstolo João. De uma parte a caridade exige a justiça e o reconhecimento e o respeito dos legítimos direitos dos indivíduos e dos povos. Ela se aplica na costrução da ‘cidade do homem’, segundo direito e justiça. Também a caridade supera a justizia e a completa na lógica do dom e do perdão. A ‘cidade do homem’ não é aprovada só pelas relações de direitos e de deveres, mas ainda mais e primeiramente da relações de gratuidade, de misericórdia e de comunhão. A caridade sempre manifesta também nas relações humanas por amor de Deus, ela dá valor teologal e salvifico a todo empenho de justiça no mundo» (Bento XVI, Caritas in veritate, 6). Advirto uma tensão em mim e na minha comunidade entre exigência de justiça e prática da caridade? As vivo interconnesse, ou oscilo entre uma suposta justiça e uma caridade superficial? A minha ação caritativa é orientata a ter uma incidência social, política, econômica trasformadora da ‘cidade do homem’?
«A parrésia se tematiza como liberdade da palavra na oração, como confiança que não admite dúvidas. […] A vontade de Deus aceita e cumprida forma também a oração, tornando-se o objeto. […] Assim como a caridade tem como fruto o “conhecimento de ser da verdade” (cfr. 1Jo 3,19), A obediência aos mandamentos tem como fruto o atendimento da oração» (A.Scarano, in Y.Simoens). Vivo a minha oração como diálogo livre e franco com Deus? Que espaço existe nela para a escuta acolhedora da Sua vontade?
A ágape exprime contemporaneamente o dom de si de Cristo a cada pessoa debaixo do sol, a compaixão humana pelo próximo na indigência, o amor que temos para com Deus e o amor que por primeiro Deus tem para conosco. Conheço todas estas dimensões da caridade? João exorta a confiar sempre na bondade divina e a ser perseverantes na observância dos mandamentos resunidos em um só: «Este é o mandamento: que acreditemos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros… Quem observa os seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele. E por isto reconhecemos que ele pemanece em nós: pelo Espírito que nos é dado» (vv. 23-24). Este único mandamento tem duas faces: a fé em Jesus Cristo, Filho de Deus, e o amor recíproco. São as duas dimensões da regra dos cristãos: a dimensão vertical, que se exprime e se atua na fé cristológica, e a dimensão horizontal, que se vive nos relacionamentos de amor recíproco na comunidade dos irmãos. Estou atenta a esta dúplice dimensão no meu modo de ser cristã ou sou desequilibrada sobre uma mais do que a outra?
Conhecer o amor recebido significa tomar consciência do amor que nos é dado. Recordar quer dizer “levar ao coração”. Se o coração recorda este amor, se tranquiliza. Portanto, conhecer e reconhecer o amor recebido nos traz antes de tudo paz ao coração e capacidade de amar. Sem conhecimento do amor não podemos amar: seria só um dever moral. Quanta parte tem nas minhas escolhas e no meu comportamento o desejo de corresponder ao amor recebido?
“Sim, Eu sinto, mesmo se tivesse na consciência todos os pecados que se podem cometer, andarei, com o coração despedaçado pelo arrependimento, a lançar-me-ei entre os braços de Jesus, porque sei quanto ele ama os filhos pródigos que retorna para Ele. Não é porque o bom Deus, na sua misericórdia preveniente, preservou a minha alma do pecado mortal, que eu me levanto e vou a Ele com confiança e amor”. (s. Teresa do Menino Jesus) Recordo a ação misericordiosa preveniente de Deus na minha história? Sei contar e testemunhar?

5 - Nascidos de Deus (1 Jo 2,29-3,10)


Gerados do Pai
«Se sabeis que Jesus é justo sabereis também que quem pratica a justiça, como Ele foi gerado pelo Pai» (2,29).
Segundo o esquema que nos guia, a quinta sessão em início em 2,29 no momento em que o Autor introduz o tema da geração do crente em Deus. Tal tema é o anúncio específico desta sessão, a palavra maravilhada sobre Deus que o revela como Pai rico e grande no amor (3,1); e o revela Pai atento e desejoso de estabelecer uma ligação estável com o discípulo fiel, que a tal manifestação vem constituido como filho.
O tema da geração não é porém isolado: é ligado a da justiça e os dois são postos em relação com a revelação de Jesus: quem pratica a justiça, estes como Jesus é gerado. Assim para o Autor da carta, o discípulo é aquele que conserva em se o desejo de ser justo conformando-se com a justiça de Jesus, como todo o capítulo 2 tinha expressamente sugerido e indicado: Quem diz que permanece nele (Jesus), deve também ele comportar-se como Jesus se comportou (2,6). Esta semelhança com Jesus manifesta ao discípulo a possibilidade de renascer filho mediante a fé e as suas obras, e isto mesmo pela possibilidade oferecida pelo Pai como dom: Quem nega o Filho, não possui também o Pai; quem professa a sua fé no Filho possui também o Pai (2,27).

Como Filhos de Deus
«Vejam que grande amor nos deu o Pai de sermos chamados filhos de Deus» (3,1a).
Enquanto a primeira parte da carta (1,1 - 2,28) era guiada pela simbologia da luz – Deus é luz e n’Ele não existe trevas alguma (1,5b) – nesta sessão o referimento principal é o amor do Pai que busca a semelhança e nos torna filhos. Vos tendes no início do capítulo terceiro um olhar admirado – quase um impulso místico – que possui uma abertura escatológica, só capaz de conter o desejo de Deus sobre nós e para conosco: «Carissimos, nós desde agora somos filhos de Deus, mas o que seremos ainda não é revelado. Sabemos porém que quando ele (o Pai) se manifestar, nós seremos semelhantes a ele, porque o veremos assim como ele é» (3,2).

Filhos, sem pecado, porque a unção do Santo permanece em nós
Com simplicidade nos agrada sublinhar estes três aspectos:
1.              Filhos. João nos diz antes de tudo que no coração de Deus não existe um pedido, mas uma oferta; para Deus não se trata de exibir um mérito, porque o seu amor é dom, é realidade pessoal e íntima para reconhecer, acolher e sentir. São Benedito - verdadeiro discípulo do Reino - exprime esta compreensão do Evangelho quando na sua Regra afirma que nada deve ser anteposto ao amor de Cristo, isto é nada deverá preceder, por importância em nós, respeito à percepção fontal de ser destinatários do amor divino. Crer então não é só conhecer que Deus existe e que se revela (ou conhecer o que revela), mas re-conhecer uma predileção e eleição, aquela do Pai, que protege, edifica, permite subsistir. Toda realidade é intrinsecamente filial. Esta é uma esperança que está escrita no profundo do nosso eu (por obra do Espírito Santo) e espera que se cumpra em uma comunhão vital: «Quem tem esta esperança nele, purifica-se a se mesmo, como ele é puro» (3,2).

2.              “nele não existe pecado”. Na Escritura o tema amartiologico (do pecado) tem uma notável importância. Deus vem ao encontro do homem e o liberta do mal e do pecado: «Vós sabeis que ele se manifestou para tirar os pecados e que nele não existe pecado» (3,5). A carta de João como as outras, não pretende colocar no centro a ação contra o pecado, mas quer mostrar com clareza o que impede a experiência espiritual: é o pecado que falsifica a relação filial. João neste capítulo terceiro sublinha a responsabilidade do discípulo: Quem comete o pecado, comete também a iniquidade, porque o pecado é a iniquidade. Não existe na carta uma explicação etiológica do enigma do mal mas se afirma que nesta luta contra o pecado (é o diabo que  é o inspirador) o discípulo fiel não está só: «Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo» (3,8b). Existe Jesus, o Filho, que precede os seus na luta e abre (vitorioso) a esperança da vitória. Mais uma vez emerge o tema do dom e do primado do seu agir.

3.              A unção do Santo e a Palavra em nós. «Quem é gerado por Deus não comete pecado, porque um germe divino permanece nele» (3,8). Com esta bela imagem da origem em via de crescimento na vida do discípulo, o autor da carta fala ao mesmo tempo de duas realidades distintas, mas por sua natureza comunicante: da não pecabilidade, entendido como resistência e luta com o espírito do mal e da Palavra, a qual, presente no coração sempre por meio do Espírito, cresce e se enraiza até levar o seu fruto. O Autor quer mostrar como a ação do Espírito é discreta mas eficaz: valorizando o pouco e o possível cria amigos de Deus, filhos reconhecidos que, como o Pai deseja, vivem pouco a vez – como acontece com o sábio desenvolvimento da natureza – aquela trasformação de si até à plenitude da própria identidade filial. O olhar é profondamente escatológico, mas não astorico ou banal; é ao contrário olhar frágil, mas convicto sobre a realidade de Deus que retoma o seu lugar no mundo. La pericope se encerra com a confiança: toda vez que se vê o amor fraterno entre os homens, esta visão do mundo se faz caminho de modo humilde mas eficaz.

 Para continuar a reflexão
O seguimento de Jesus nos toca no íntimo, tornando-nos responsáveis pela verdade de um percurso de purificação do pecado. Me interrogo então sobre o meu caminho, sobre os impulsos que me animam e sobre as fadigas que me reprimem. Procuro fazer com clareza, mesmo se a vezes isto me assusta e me embaraça. Me pergunto: quais as escolhas ou quais as não escolhas que faço na minha vida de fé? Qual o discernimento que faço sobre o que me aproxima e sobre o que me distancia do Senhor?

A Primeira Carta de João anuncia o amor “imenso” com o qual Deus ama a me e as pessoas que fazem parte da minha vida (em diversos níveis e graus) e enfim todos os homens. Do mesmo modo se o anúncio do Evangelho é sempre válido, é verdade todavia que em nós todos existe um esquecimento, quase uma dúvida presente no coração que afirma: eu não mereço a atenção de Deus, eu não mereço o amor de Deus, eu não tenho necessidade. A mesma dúvida grita em alguns momentos da vida: eu não sou capaz de amar gratuitamente, não vale a pena, não consigo empenhar-me para o bem e ninguém me merece. Cada um sente e vive esta voz de modos diferentes e com tonalidades diversas que trazem origem da própria história pessoal, das vidas familiares e relacionais. João nos convida a purificar o coração e a crer em Deus confiando na Sua fidelidade: ela é a rocha sobre a qual é possível fundar-se. Deus é confiável. A que ponto está o meu caminho pessoal cuidado para a aceitação do amor de Deus e para a gratidão que me põe em relação filial com ele?

Me interrogo enfim sobre as minhas disposições interiores e sobre como posso deixar-me trasformar por Deus na minha realidade quotidiana. Ponho um olhar sobre o terreno interior no qual cai a Palavra e leio os sinais da ação do Espírito a partir dos sinais concretos de confiança que concedo ao olhar de Deus em me?

sexta-feira, 9 de março de 2018

3 - O mandamento novo  - 1 Jo 2,7-17  ( Mês de maio)


 O mandamento novo

«Caríssimo, não vos escrevo um novo mandamento…» (2,7). Faz aqui a sua primeira aparição de um tema que se verá muitas vezes no decorrer da carta e verificado em todas as suas tonalidades: o tema de amor. Um tema que vem exposto através daquela expressão já usada no quarto Evangelho próprio para indicar o amor fraterno e recíproco sobre o exemplo de Jesus: «Vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros…» (Gv 13,34).

O «mandamento novo», que o autor da carta recorda aos seus destinatários, não é outra coisa do que o mandamento que a primeira comunidade cristã recebeu de Jesus come sinal distintivo da própria pertença a Ele: «Por isto todos saberão que sois meus discípulos: se tiveres amor uns para com os outros» (Gv 13,35). Neste sentido é também um «mandamento antigo» porque se coloca nas origens da comunidade dos discípulos de Jesus e faz parte desde o início da sua “bagagem” de identidade, daquilo que a constitui, do seu trato distintivo («…que recebestes desde o princípio»). «Novo» e «antigo» são dois termos que parece difícil manter juntos por ser uma mesma realidade: o seu caráter contraposto, realmente (se uma coisa è nova não pode ser ao mesmo tempo antiga, e vice-versa).

No entanto para o «mandamento novo» de Jesus, o mandamento evangélico por excelência, este (antigo-novo), porque è sim uma realidade antiga, uma palavra ouvida «desde o princípio» (1Gv 1,1; 3,11) e preparada desde os primórdios da história do povo de Israel (cf. Lv 19,18), mas è ao mesmo tempo também uma palavra nova porque exprime e revela toda a novidade de Jesus, o tempo novo inaugurado com a sua vinda e o mondo novo que com Ele iniciou a tomar forma. Se o mandamento do amor fraterno já era conhecido no Antigo Testamento, é porém só com Jesus, com a sua vinda, que ela adquire uma profundidade, uma amplidão e uma intensidade até então imaginável.

E a maior novidade é «como eu vos amei» (Gv 13,34) que Jesus acrescenta ao convite de amar-nos reciprocamente. O mandamento è «novo», então, porque novo é o amor com o qual podemos vivê-lo, porque è o amor próprio de Jesus que nós acolhemos e que por nossa vez doamos para os irmãos. A novidade é que agora nós nos tornamos capazes de amar “como Ele”, porque è Ele mesmo que ama em nós, se nós lhe permitirmos ficar em nossos corações e deixarmos que o seu Espírito encontre habitualmente casa em nós (cf. 1Gv 3,24: «Nisto conhecemos que ele permanece em nós: pelo Espírito que nos é dado»).

No novo dia

Tudo isto se torna possível desde o momento que «já aparece a luz verdadeira» (v. 8b). Nós podemos viver, podemos caminhar, podemos amar em plenitude, porque já estamos no dia luminoso inaugurado por Jesus, já estamos na sua luz e portanto todo o nosso agir pode assumir uma nova conotação. Como sem a luz não è possível alguma forma de vida e todas as coisas permanece na obscuridade e no anonimato (as suas formas, as suas cores, os seus movimentos não podem manifestar-se), assim sem aquela luz que vem de Deus – ou melhor, que è o próprio Deus (cf. 1,5!) – não è possível caminhar com Ele, comportar-se como Ele (cf. 2,6).

E é próprio o amor, aquele que vem d’Ele, aquele que é infuso nos nossos corações por meio do seu Espírito, o critério e a medida para perceber se efetivamente estamos caminhando a luz do dia, do Seu dia: «Quem diz que estar na luz…» (2,9). Amor e luz, ódio e trevas, estão sempre juntas, são quase sinônimos: o amor abre os olhos e ilumina a vida; o ódio ao contrário torna cegos e faz descer sobre tudo uma coberta de trevas, quase prelúdio de uma morte certa. Alguém fala aqui de «Clarividência do amor» (B. Maggioni), porque o amor não è só uma dimensão do nosso agir, do nosso comportamento, alguma coisa que resguarda somente, por assim dizer, a esfera moral da nossa vida, mas è também – e talvez a primeira âncora – isto que permite de conhecer, de ver, de colher os significados profundos das coisas.

Neste sentido, o amor è uma forma de conhecimento, ou seja è a forma de conhecimento mais alta porque consente de conhecer ao próprio modo de Deus, consente de conhecer compreendendo cada coisa na sua verdade, aquela verdade que emerge em toda a sua clareza só quando è aproximada por um olhar humilde e acolhedor, que não julga e não fere, mas encoraja e faz crescer…

 Se «Deus è luz» (1,5), se Jesus è a «luz verdadeira» (Gv 1,9) vinda ao mondo para iluminar cada homem, è só o amor – o Seu amor antes de tudo, que se torna presente no nosso – que confirma e torna manifesta esta verdade. Quando amo o irmão, quando acolho todos os acontecimentos da vida com aquela íntima disposição do coração que busca ver o bem em toda parte, eis que tudo aparece mais luminoso, eis que aquela luz que já está presente neste mondo se torna mais clara, mais intensa e resplendente. È talvez por isto que se diz que “o amor transfigura todas as coisas”, no sentido que faz aflorar aquela luz que cada realidade já tem em si e que se liberta somente quando è tocada por uma força boa capaz de exaltar todas as potencialidades positivas que existem nela.

O mundo sem esta luz mostra-se sem vida, imerso nas trevas da ignorância, do pecado, da morte. Por isto o autor da carta exorta com força a não amar «o mundo, nem as coisas do mundo» (2,15a). O mundo para “não amar” è aqui, esse mundo que se opõe a Deus, que não quer deixar-se iluminar pela sua luz e que pretende colocar-se no centro da vida dos homens, quase como um ídolo para ser adorado no lugar do verdadeiro Deus. Quem ama o mundo (no sentido apenas dito), quem se deixa seduzir pelas suas lógicas de morte, de mentira, de prostituições, è sinal que o amor do Pai (se entende no dúplice sentido do amor que provém de Deus e do amor que nós devemos para com Ele) não encontrou ainda morada nele.

O mundo passa com a sua concupiscência

E para esclarecer melhor que coisa levam para longe de Deus, quais são aquelas tendências ruins que impedem ao amor do Pai de vir morar em nós, eis que João as exemplifica em três inclinações ou paixões negativas nas quais se encerram tudo o que está redialmente em contraste com a lógica do amor divino: «a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida» (2,16). Sem entrar em minuciosos detalhes, podemos dizer que as primeiras duas expressões indicam sobretudo a tendência desordenada para qualquer coisa que se deseja, a busca apaixonada e desmedida de qualquer coisa Que não è Deus, mas que quer tomar-Lhe o lugar. A terceira expressão, ao contrário, sublinha o orgulho pelo que se possui (esta última expressão de fato poderia ser também traduzida com «a arrogância da riqueza») e a falsa segurança de uma vida satisfeita, cheia mais de bens do que de verdadeiras riquezas da alma (uma ilustração eficaz deste acontecimento podemos encontrar na parábola do rico louco contada em Lc 12,15-21).

«E o mundo passa com a sua concupiscência…» (2,17). Além de ser enganador e nocivo, este modo de “amar o mundo” è também passageiro, sem consistência, absolutamente falso, porque o mundo «passa (é passageiro)». enquanto quem se deixa conduzir pela vontade de Deus, quem procura fazer todas as coisas à luz do seu amor, quem procura caminhar «como Cristo caminhou» (2,6), «permanece» por toda a eternidade, a sua vida adquire solidez, durabilidade e estabilidade. Como as trevas «passam/se desfazem (é passageira)» (v. 8b) ao chegar a luz, assim quem se obstina a caminhar nas trevas não pode esperar “permanecer”, eternamente, porque não está em comunhão com a luz, é só a realidade que “permanece” enquanto sinal e revelação do próprio rosto de Deus (cf 1,5). Como nos narra o livro do Apocalipse, no fim dos tempos «não existe mais noite» (Ap 21,15; 22,5), nem trevas alguma, porque a luz do Senhor invadirá tudo e brilhará para sempre.

Para concluir, podemos ouvir outra vez aqueles versículos colocados quase no centro do nosso trecho e que constituem uma espécie de intermédio no qual o autor da carta se volta diretamente aos seus destinatários dirigindo-lhes a palavra como «filhinhos» «pais» jovens» (vv. 12-14). Dirigindo-se aos seus leitores com estes diversos nominativos, João parece mesmo dirigir-se a todos, aos membros de todas as gerações, a toda categoria de pessoas, a todo grupo presente na comunidade destinatária da carta (alguns viram aqui três distinções não só de idade mas também de maturidade espiritual, outros leram três qualidades presentes em cada um: como a dizer que cada um pode sentir-se interpelado e chamado diretamente para a causa…). «Filhinhos» «pais» «jovens»: cada um possui um dom, um grande dom para cuidar zelosamente e para valorizar plenamente, um dom para reconhecer com infinita gratidão e para não deixar-se de nenhum modo que se perca pelo caminho.

O perdão dos pecados, o conhecimento de Deus como Pai e a vitória sobre o Maligno, são realmente três grandes dons que todo cristão já possui pela força do «nome» de Jesus (cf. v. 12), isto è pela sua obra, pela sua vida e pela sua morte oferecidas por nós. Podemos ler estes três dons – ou realidade dos quais o cristão já faz experiência – come coligados e concatenados um com o outro: o verdadeiro rosto de Deus como Pai, de fato, se descobre primeiramente através da experiência do perdão (cf. Lc 15!) e, uma vez conhecido o Pai e tendo acolhido a sua palavra no profundo do coração, se pode afrontar a luta contra o Maligno seguros da vitória. Retorna aqui, neste versículo 14, aquele verbo tão característico de João já aparecido no v. 10 e que aparecerá ainda no v. 17: «permanecer». «Sois fortes e a palavra de Deus permanece em vós».

“Permanecer em” é expressão que diz a ligação duradoura de uma comunhão, a estabilidade em uma relação, o permanecer de uma realidade em outra. Se a palavra de Deus permanece em nós, mora em nós, é o próprio Deus que fez morada em nós e em nós estabeleceu a sua casa. Se não somos nós a expulsara-lo, ele permanecerá, nos guardará e nos protegerá de todo mal, porque a sua palavra è poderosa, viva e eficaz (cf Eb 4,12), e nada e ninguém pode resistir diante dela. Guardemos portanto esta palavra no coração, deixemos que cresça e dê os seus maravilhosos frutos, e conheceremos os abismos do amor de Deus, a beleza do seu rosto de Pai e o esplendor daquele mundo novo, transfigurado pela luz que apareceu com a vinda do seu Filho…
 Para continuar a reflexão

João não separa nunca o amor por Deus do amor pelos irmãos. O  «mandamento novo», sobre o qual retorna muitas vezes nos seus escritos, diz toda a profundidade de um amor que muito olha para o “alto” (o Pai), mas se sente impelido a dirigir-se para o “baixo” (os irmãos). Acreditamos que o amor – este amor tão concreto, tão útil e quotidiano, tão atento a todos aqueles que preenchem os nossos dias – seja a única verdadeira novidade da nossa vida e que a sua luz seja suficiente para iluminar o nosso caminho e a levarem ao cumprimento todos os nossos desejos?

  A nossa vida neste mundo è constantemente assinalada por uma luta que assume os traços de um dúplice amor, uma dúplice paixão: pelas coisas do mundo e pelas realidades do Céu. «O amor do Pai», como temos visto, è incomparável com «O amor do mundo» (v. 15). Se somos filhos de Deus, existe um só amor que se nos destinam enquanto filhos: como deixá-lo crescere em nós, como deixarmos encher o coração assim a ponto de não concedere più muito espaço a isto que João chama «a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida»?

  Como filhas amadas, como discípulas do Senhor, como destinatárias de uma palavra que é luz sobre o nosso caminho, temos recebido o maior dom que nos podia ser dado: a comunhão com Deus, a participação na sua própria vida; uma comunhão que nos leva a plenitude da alegria (cf. 1,3-4). Como cuidar deste dom? Como viver tendo cuidado para não dissipar este tesouro, para não desperdiçar toda a graça recebida, para não apagar aquela luz que Deus já acendeu em nós? Porque – pensemos bem – este é o único e só contributo que nos é pedido